uando
pensei em quem seria o sambista ideal para iniciar o projeto Perfil
do Sambista, logo me veio à mente o nome de Moacyr Luz, para
melhor traduzir o espírito atual do Samba Carioca. Basta acompanhar
uma roda por ele pilotada no Clube Renascença, em Vila Isabel,
toda a segunda-feira, e entender a força que ela tem.
Moacyr
é um dos mais atuantes sambistas e sobretudo um apaixonado pelo
Rio de Janeiro e pela cultura carioca. Amante dos subúrbios,
das esquinas e bares escondidos pela cidade. Um sujeito de grande simpatia
e simplicidade.
Não
é à-toa que Moacyr Luz é considerado um dos grandes
compositores da atualidade. Fez centenas de canções, muitas
gravadas por ícones da nossa música como Maria Bethânia,
Nana Caymmi, Gilberto Gil, Leila Pinheiro, Fafá de Belém,
Fátima Guedes, Leny Andrade, Rosa Passos e muitos outros.
Moacyr
Luz Silva nasceu no Rio de Janeiro em 5 de abril de 1958. Passou a infância
ouvindo o clarinete tocado pelo avô, músico da banda do
corpo de bombeiros. Perdeu o pai aos 15 anos e costumava tocar violão
para matar a saudade. Ainda jovem, se encantou com o samba, ao ouvir
os primeiros acordes bem tocados de um violão. Percebeu que esse
seria seu ofício. O violonista e guitarrista Hélio Delmiro,
de quem sofreu grande influência, foi seu primeiro parceiro de
cordas e sua principal influência no início de sua formação
musical.
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Moacyr
desejava apenas ser um bom instrumentista, mas aos poucos foi se percebendo
também como compositor e cantor. Com Aldir Blanc, parceiro
de longa data, ele divide a autoria de centenas de composições.
Tudo começou em 84, com "A Tua Sombra", faixa do
disco de estréia, e seguiu com a música que virou hit
de novela "Mico Preto" e muitas outras composições
que já estão imortalizadas.
- Moro no prédio do Aldir há 20 anos. Somos daqueles
amigos que vão na casa do outro quando acaba o açúcar.
Nossas músicas falam do cotidiano, são diferentes das
que ele compôs com outros parceiros. Conseguimos criar uma identidade
- diz Moacyr.
Em
1988 lançou "Moacyr Luz", seu disco de estréia
que contava com a participação do virtuoso violonista
Raphael Rabelo, além do sempre parceiro Blanc. Em 95 lançou
"Vitória da ilusão", no qual participaram as
Pastoras da Portela, um quarteto de cordas e um grupo de percussão
africana - Moacyr celebrava, assim, 10 anos de parceria com Blanc. "Mandingueiro"
foi seu terceiro álbum. Lançado em 98, o disco, que trazia
os mestres Nei Lopes e Paulo César Pinheiro, conquistou grandes
elogios da crítica. Depois veio "Na Galeria", em 2001,
quando Moacyr interpreta bambas como Cartola, Noel Rosa e Paulinho da
Viola, colhendo, mais uma vez, elogios da imprensa. Em seu quinto disco,
"Samba da Cidade", apresenta músicas gravadas com Wilson
Moreira, Martinho da Vila, Paulo Cesar Pinheiro, Wilson das Neves, Nei
Lopes e Luiz Carlos da Vila.
Em
2005, veio "A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro",
no qual transforma em música obras de poetas como Ferreira Gullar,
Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e Mário
de Andrade, acompanhado do excelente sexteto de choro Água de
Moringa. Segundo Moacyr, foram 10 anos construindo este CD de samba
e choro, que passeia pelo lado lírico da Cidade Maravilhosa.
No último disco solo, "Violão e Voz", ele relê,
no formato acústico, algumas de suas canções, somadas
a clássicos imortais da música brasileira.
Entre
tantas pérolas, "Saudades da Guanabara", parceria com
Paulo César Pinheiro, é certamente uma de suas obras mais
representativas, uma autêntica declaração de amor
à cidade. Hoje Moacyr atua também como produtor e no currículo
já traz
os Cds de estréia de Casquinha e Guilherme de Brito, além
do "Samba do Trabalhador - Renascença Samba Clube",
fruto de sua consagrada roda "Samba do Trabalhador", uma ironia
ao horário e dia ingratos em que é realizada (das 14 às
20 horas nas segunda-feiras). Luz assina a última faixa do disco,
"Cabô", de certo uma das melhores da coletânea
que revelou músicos de alta qualidade como Abel Luiz (compositor
e cavaquinista) e Wladimir Silva (violonista).
| Como
se não bastasse, Moacyr acaba de lançar o livro "Manual
de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos", pela
editora SENAC RIO, com ilustrações do grande cartunista
Jaguar, outro P.H.D. no assunto. As 25 deliciosas histórias
são ambientadas no Rio de Janeiro e vêm acompanhadas
de entrevistas com respeitáveis boêmios, abordando
aspectos diferentes da cultura de botequim: a comida, o banheiro,
a cerveja, o pendura, a mulher... |
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Luiza Dionízio, uma linda voz presente
no Samba do Trablhador.
foto: Marco Pozzana |

Confira
aqui a entrevista com Moacyr Luz, feita no Clube Renascença em
24/10/2005, um dia nublado que prometia chuva - por isso a roda foi
realizada na quadra do clube (o Samba do Trabalhador acontece mesmo
se São Pedro não colabora).
Samba
Carioca: Quais as suas principais influências na música?
Moacyr Luz: Ary Barroso é disparado o que tem mais influência
sobre minhas músicas, pois estas são cravejadas de citações,
mas também Nelson Cavaquinho, Cartola, Elton Medeiros, Noel entre
tantos bambas.
S.C.:
E no cenário contemporâneo?
M.L.: O grande mistério do samba é que não existe
velho, ele está sempre se renovando.
Tirando
os "cascudos" (referência a Zeca Pagodinho e Paulinho
da Viola), tenho grande admiração ao Luiz Carlos da Vila,
Wanderley Monteiro, entre outros.
S.
C.: Entre suas composições, qual a favorita?
M. L.: Posso dizer que dentre tantas, "Saudades da Guanabara"
é uma das mais representativas. Também "Medalha de
São Jorge" e "Coração do Agreste"
(gravada por Fafá de Belém).
S.
C.: Quais as melhores composições de toda a história?
M. L.:"Aquarela do Brasil" é a obra-prima de Ary Barroso
e se confunde com o Hino Nacional. "Carinhoso", de Pixinguinha,
"O Bêbado e o Equilibrista", de João Bosco e
Aldir Blanc.
S.C.:
Qual o seu botequim favorito?
M.L.: O caseiro. Que não seja muito sujo para se ter medo, nem
muito limpo para parecer uma CTI. Gosto muito do "Paladino"
e do "Bar Vanhargem".
S.C.:
E o petisco?
M.L.: Coisas para beliscar com a cachaça. Adoro jiló e
camarão fresco.
S.C.:
Qual o seu local favorito para compor?
M.L.: Sou um compositor diferente, gosto de compor sóbrio, sempre
pela manhã, com meu violão de compor. Vejo as composições
como algo espiritual, já estão na cabeça. A inspiração
é fundamental para detonar esse processo.
S.C.:
Bebida alcoólica?
M.L.: Cerveja e cachaça branca
S.C.:
Santo de devoção?
M.L.: Meu São Jorge guerreiro.
S.C.:
Tem Hobby? Qual?
M.L.: (risos) Gosto de cozinhar.
S.C.:
O que considera lixo musical?
M.L.: Não gosto da arte comercial. Respeito a sinceridade, espiritualidade
e boa intenção.
Na roda não gosto do sujeito que chega cantando de qualquer jeito,
um pandeirista que usa as platinelas muito soltas...
S.C.:
Qual o seu canto preferido no Rio de Janeiro?
M.L.: O Centro da Cidade, muitas vezes tiro um dia para me embrenhar
em algum canto por lá. Vou ao Morro da Conceição,
como uma sardinha na rua Miguel Couto...
S.C.:
Qual o pior problema do Rio de Janeiro?
M.L.: A violência. Pessoas que se julgam capazes de resolver os
problemas e vão varrendo a sujeira para baixo do tapete.
S.C.:
O que está lendo?
M.L.: Acabei de ler "Memória das minhas putas tristes",
de Gabriel Garcia Marques, e estou lendo o "Café Ponto Chique",
de Chico Freitas.
S.C.:
O que tem escutado em casa?
M.L.: Nestes últimos dias quase nada, afinal mal tenho parado
em casa, andei muito ocupado.
S.C.:
O que não pode faltar em sua casa?
M.L.: Minha geladeira particular, sempre com cerveja e algo escondido,
como siri e outros quitutes.
S.C.:
Existem muitos admiradores do seu jiló. A receita é
segredo?
M.L.: Não, até dei a receita para a Danuzia Bárbara.
Em geral gosto dele fritinho, adicionando alguns igredientes como alho,
cheiro-verde... (Moacyr me deu uma prova do jiló que fica na
mesa dos sambistas, é realmente fantástico, e sou também
um amante do fruto).
S.C.: Como
têm sido as últimas rodas aqui no Renascença?
M.L.: Nas quatro últimas edições, tivemos em torno
de 2.300 pessoas e, na semana passada, foram mais de mil pagantes.
S.C.: O
que acha do samba em São Paulo?
M.L.: Tem um troço bacana em São Paulo, os paulistas sempre
foram muito receptivos aos sambistas cariocas. Levavam o Nelson Cavaquinho
pra Sampa na época das "vacas magras".
S.C.: Que
conselho daria aos sambistas que estão começando?
M.L.: Ouvir, ouvir muito e não acreditar que tudo é inspiração.
Se o cara não tiver talento, não adianta.
Discografia:
| Moacyr
Luz (1988)
Independente |
Vitória
da Ilusão (1995)
Caju Music |
Mandingueiro
(1998)
Dabliú |
Na
Galeria (2001)
Lua Discos |
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Samba
da Cidade (2003)
Lua Discos |
A
Sedução Carioca do
Poeta Brasileiro (2005) |
Violão
e Voz (2005)
Deckdisc |
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Participação
Especial:
Esquina
Carioca – Uma Noite com a Raiz do Samba (1999) – Dabliú,
ao lado de João Nogueira, Dona Ivone Lara, Luiz Carlos da Vila,
Beth Carvalho e Walter Alfaiate.
Samba
do Trabalhador - Renascença Samba Clube (2005) - CD
gravado ao vivo no Clube Renascença
Reportagem:
Marco Pozzana
Colaboração: Carolina Canegal

fotos: Ierê Ferreira |
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